1.
Comecei a ver e rever uns filmes do Jerry Lewis diretor. O primeiro longa que Lewis dirigiu foi The Bellboy (1960). O mais incrível é que foi concebido às pressas para estrear no verão de 1960, enquanto o estúdio queria lançar Cinderfella, de Frank Tashlin, que Lewis havia acabado de finalizar como sua grande comédia para o período. Porém, Lewis insistiu que o filme funcionaria melhor como lançamento de Natal. Tudo certo, contanto que ele entregasse outra coisa à tempo de estrear no verão. Lewis escreveu um roteiro de mais de 160 páginas em apenas oito dias, filmou tudo em vinte e concluiu a montagem em menos de quatro semanas. E temos The Bellboy.
A ideia básica era criar esse personagem central, Stanley (o próprio Lewis), um funcionário de hotel atrapalhado e completamente mudo (exceto pela piada no último minuto de filme), homenageando seus antigos ídolos da comédia. Ambientado no luxuoso Fontainebleau Hotel, em Miami Beach, o filme acompanha Stanley em sua rotina de trabalho causando suas confusões. Não há um enredo tradicional definido, a coisa toda é construída como uma sucessão de gags, Lewis faz um cinema livre, com uma direção inventiva, um controle formal preciso que surpreendeu todo mundo, tanto na frente quanto atrás das câmeras. Já era um ator carimbado da comédia, já tinha certo controle nas produções, teve um grande mentor como o Tashlin, mas acho que nem os mais otimistas poderiam esperar um filme tão inovador (na França teve uma recepção melhor, obviamente), acabou sendo meio que um divisor de águas na comédia americana do período.
A cena em que Lewis tira uma fotografia durante a noite, com o flash estourando, transformando a noite em pleno dia, é apenas uma dessas proezas malucas que demonstram a genialidade do sujeito.
Lewis provou com The Bellboy que conseguia dirigir um filme ao seu modo, engraçado e inventivo. E aí veio o segundo filme, The Ladies Man (1961), e resolve dar um passo a mais, incluindo um absurdo, extraordinário, transcendental senso de espaço. A trama, assim como no anterior, pouco importa, embora aqui já tenha um plot mais definido, a do sujeito que se decepciona amorosamente, passa a ter aversão à mulheres e acaba arranjando emprego como zelador numa casa de pensão habitada somente por garotas. O essencial é ser arrastado mais uma vez por uma sucessão de esquetes, e aqui temos um prato cheio, que dão a Lewis a oportunidade de desfilar seu repertório de caretas e situações engraçadas e nonsense.
E obviamente, o grande trunfo do filme fica com o famoso cenário, a enorme casa construída dentro do estúdio, com a quarta parede removida pra permitir que a câmera revele toda sua estrutura em planos gerais impressionantes, abraçando com força a artificialidade do cinema. Num único plano panorâmico, o espectador pode ver o que tá acontecendo em vários quartos diferentes ao mesmo tempo, numa aula de mise-en-scène e profundidade de campo. E que Godard homenageou em Tout va bien (1972).
Toda vez que a câmera recua para enquadrar a construção inteira, é difícil não se impressionar com sua escala. Belíssimo de ver, sobretudo graças à fotografia cuidadosamente iluminada, às cores vibrantes e à liberdade de imaginação que Lewis se permitia explorar sem qualquer restrição, como na extraordinária e complexa sequência em que a organização espacial do filme dá lugar a uma espécie de câmara das frustrações sexuais masculinas, quando o protagonista entra no único quarto em que está proibido de entrar.
No mesmo ano de The Ladies Man, saiu também The Errand Boy. Fico na dúvida em dizer qual prefiro. Se a grandiosidade do cenário artificial e colorido do primeiro e o que Lewis faz com tudo isso ou se é a resposta sarcástica ao próprio estúdio que financiava suas extravagâncias, que é este aqui. Jerry Lewis faz um sujeito atrapalhado, como sempre, que justamente por isso acaba contratado pela diretoria de um estúdio fictício para atuar como um espião disfarçado e descobrir onde estão perdendo dinheiro. Obviamente o rapaz acaba se tornando a maior fonte de destruição e prejuízo da empresa.
Tem uma estrutura episódica mais solta, lembrando até a dinâmica de The Bellboy, mas com mais maturidade de Lewis como diretor. Daqui saem algumas de suas sequências clássicas, a das balas de goma, uma das minhas favoritas, a da piscina, a célebre pantomima embalada pelo jazz de Count Basie e tantas outras. Há também as cenas com os fantoches, que à primeira vista parecem esquisitas dentro da trama de comédia, mas acabam funcionando como um raro momento de suspensão. Lewis abandona por alguns minutos a necessidade de fazer rir e se permite um instante de nonsense melancólico e autorreflexão. É o tipo de coisa que permanece na memória. Não a trama de espionagem, que praticamente não leva a lugar nenhum (embora a ideia de uma sátira sobre Hollywood seja sempre interessante) e existe apenas como um pretexto para Lewis espalhar o caos pelo estúdio. O que realmente importa é a sucessão de cenas e esquetes brilhantes e inventivas de um comediante com um domínio impressionante de mise-en-scène.
O filme mais famoso dirigido por Jerry Lewis veio a seguir. The Nutty Professor (1963), provavelmente a melhor releitura do clássico O Médico e o Monstro.
Acho que Lewis entrega aqui a performance mais completa de sua carreira, um dos melhores exemplos da capacidade do sujeito de interpretar personagens radicalmente distintos ao encarnar o tímido e desajeitado professor de química, que cria um soro pra se transformar num irresistível e arrogante sedutor, chamado Buddy Love. A sequência da transformação, por exemplo, depende menos de efeitos de maquiagem do que da extraordinária precisão corporal de Lewis, capaz de alterar completamente sua postura, seus gestos e sua presença em cena. Buddy Love é uma figura ao mesmo tempo magnética e repulsiva, provavelmente uma provocação direta ao ex-parceiro Dean Martin, enquanto o professor carrega uma vulnerabilidade, aquele jeitão atrapalhado que Lewis faz tão bem. A distância das composições é tanta que, em alguns momentos, a impressão é de que são atores diferentes.
Embora não seja meu filme favorito de Lewis, é certamente um de seus trabalhos mais maduros, no controle absoluto do tom e na sofisticação da direção, no uso estilizado das cores, um belíssimo Technicolor, do design de som expressivo, e obviamente da capacidade de fazer uma comédia hilária e reflexiva, uma anatomia trágica sobre a rejeição e a dualidade da psique humana. O jovem “cinéfilo” twitteiro da atualidade obviamente vai diminuir o filme dizendo que há uma certa misoginia, vai reclamar da personalidade agressiva e arrogante de Buddy Love (basta ler algumas reviews no Letterboxd), então às vezes é preciso repetir o óbvio: o filme não celebra esse personagem e sua crítica à obsessão pelas aparências e ao fascínio por um tipo de masculinidade performática continua tão afiada hoje quanto em 1963, o que explica por que The Nutty Professor permanece como uma das obras fundamentais de Lewis.
Por fim, The Patsy (1964). Vi algo desse filme quando era moleque na TV, a única coisa de que eu me lembrava era do acidente de avião que abre a história. Os filmes de Jerry Lewis passavam na Sessão da Tarde, da Globo, nos anos 80, numa época em que ainda era possível forjar uma cinefilia pela televisão aberta, algo impensável hoje. Lewis vive mais uma vez um funcionário atrapalhado e sem nenhum talento, moldado por uma equipe de empresários gananciosos para substituir um famoso comediante morto no tal acidente. A partir do momento em que Lewis entra em cena, com direito a um dos créditos iniciais mais deliciosamente engraçados de sua carreira, o filme engrena numa maratona irresistível de piadas visuais. Os destaques ficam pra sequência do salão de beleza, com Scatman Crothers engraxando o sapato de Lewis enquanto faz suas caretas, e a clássica aula de canto com Hans Conried. E claro, o final, quando Lewis faz mais uma de suas brincadeiras de desmontar a ilusão do cinema. No elenco, participações de John Carradine e Peter Lorre.
Como já é o quinto filme de Lewis que vejo em ordem cronológica em pouco tempo, impossível não perceber uma certa repetição das mesmas dinâmicas e estripulias, o que é bom, no sentido de perceber um artista se mantendo fiel às suas fórmulas. Mas vendo tudo em sequência The Patsy acaba ficando abaixo dos outros trabalhos acima, mais inspirados. Só não deixa de ser também uma comédia de altíssimo nível.
2
Eu não vi muitos filmes da parceria Sternberg/Dietrich, se não me falha a memória apenas Morocco (1930) e Shanghai Express (1932). Ambos maravilhoos. Mas agora vi The Scarlet Empress (1934) e achei o melhor de todos. O sujeito me pega como premissa a ascensão de uma jovem princesa alemã até se tornar a Imperatriz Catarina II da Rússia pra fazer um dos estudos visuais mais impressionantes daquele período em Hollywood. Excessivamente barroco e estilizado, um triunfo da forma, quase um filme experimental abstrato que abandona qualquer compromisso sério com a narrativa pra se entregar num pesadelo gótico, com a corte russa retratada como um labirinto de atmosfera pesada, cheio de gárgulas espalhados pelo local, estátuas grotescas, sombras expressionistas e portas gigantescas. A sequência do casamento e do jantar que se segue, com a câmera passeando pelos cenários carregados de informação visual, é um troço absurdo. Brutal.
E ainda tem Dietrich entregando uma performance monumental, sendo engolida pelo cenário, mas que impressiona com sua transição de uma jovem ingênua e aterrorizada pra uma soberana fria, calculista e sexualmente dominante.
3
Dois filmes da safra recente que assisti. The Order (2024) é um bom filme policial, um pouco mais truncado do que deveria, e o diretor, Justin Kurzel, não é dos mais empolgantes com a câmera. É o primeiro filme dele que assisto. Mas acho interessante como o filme é construído sobre a ideia de que a oposição real a um movimento criminoso de supremacistas brancos são as autoridades policiais mais incompetentes e desorganizadas possíveis, o que acaba sendo um comentário ainda mais incisivo sobre algumas questões dos Estados Unidos... Mas, vá lá, no fim conseguem resolver o caso. E gosto da composição de personagem do agente do FBI de Jude Law nesse sentido. Não sei se os realizadores fizeram isso de forma consciente, mas por trás da figura do policial experiente e que aparentemente sabe o que tá fazendo, o sujeito só faz cagada. Ele e o Nicholas Hoult estão muito bem, quase parecem um espelho um do outro, policial e bandido representando os piores lados da América. E nisso o filme acerta em cheio.
E vejam só, um filme de 2026 que curti. The Drama, de Kristoffer Borgli. Não é nenhum grande filme, mas assisti interessado, gosto como trata das relações e como lida com um tema espinhoso que poderia facilmente cair numa dessas armadilhas moralistas. Ainda bem que não caiu. Depois que uma das personagens lança a bomba ao revelar um episódio do seu passado, a coisa fica assombrando os personagens, mergulhados nas consequências de um “e se?” particularmente contundente pra a sociedade americana, mas sem a necessidade de ficar se fechando em discursos bestas, o que já é uma vitória hoje em dia.
E é um filme bem engraçado. As situações vão ficando absurdas até desembocar na cena do casamento no final, um festival de constrangimento cômico. Enfim, a direção é meio inerte, de vez em quando a montagem e o encadeamento das situações passam a impressão de que o povo não sabe muito bem o que tá fazendo, e confesso que eu gostaria que o filme tivesse coragem de ir ainda mais longe nessa escalada de absurdos, mas não dá para esperar muito do cinema bunda-mole atual. Mas tá bom, eu disse que não tenho muito que reclamar, mas tô descendo a marreta num raro filme deste ano que até que gostei mais do que eu imaginava...
E só pra constar, Zendaya e Robert Pattinson estão muito bem, mas Alana Haim é a maioral!
Edições anteriores:
Newsletter #1
Newsletter #2
Newsletter #3
Newsletter #4
Newsletter #5
Newsletter #6






