NEWSLETTER #1
O que ando assistindo na última semana
Vou começar a publicar esta newsletter, que vou chamar literalmente de newsletter, semanalmente pra fazer um apanhado do que rolou por aqui nos últimos dias. A ideia é que ela saia sempre aos domingos.
Curiosamente, esta primeira edição coincide com a primeira semana da Copa do Mundo de 2026. Não sou exatamente um fanático de futebol, mas sou um grande entusiasta de Copa do Mundo. A seleção brasileira em si pouco me importa (e seria intragável pra mim torcer pra uma seleção que tem Neymar, Paquetá, Casemiro, entre alguns outros), mas adoro a competição e tento assistir ao maior número de partidas possível.
E, bom, o que quero dizer é que os jogos do Mundial têm disputado meu tempo livre com os filmes. Assisti a bem menos coisas do que gostaria nos últimos dias.
1.
Mas assisti a Paris vu par… (1965) pela primeira vez. Um filme de episódios que funciona quase como um manifesto estético da Nouvelle Vague. Seis diretores filmam curtas espalhados por Paris utilizando película 16mm e som direto, o que confere à obra uma urgência documental e uma unidade visual entre os segmentos que eu não esperava encontrar. Até porque são nomes muito diferentes entre si, mas todos os envolvidos são de peso: Éric Rohmer, Jean-Luc Godard, Jean Douchet, Claude Chabrol, Jean-Daniel Pollet e Jean Rouch. Mas reunidos por esses olhares sobre a cidade criou-se uma unidade interessante.
Acho que o grande trunfo foi a óbvia rejeição da Paris dos cartões-postais e das fantasias românticas pra explorar os desencontros, os acasos e a banalidade das relações humanas através da própria arquitetura urbana. É um documento histórico fascinante, não apenas da cidade naquele período, mas também de uma forma muito específica de fazer cinema, naquele momento e naquele lugar. Há episódios melhores que outros, evidentemente, mas deixo um destaque especial para o segmento dirigido por Jean Rouch que, curiosamente, é narrativo. Talvez o meu favorito.
2.
Uma descoberta interessante que fiz essa semana foi a do diretor Peter Emmanuel Goldman. Cineasta independente ligado ao cinema underground nova-iorquino dos anos 60 e inspirado pela Nouvelle Vague francesa, tem uma filmografia curta, desses sujeitos à margem da história oficial do cinema, mas que merecia ser reconhecido como uma figura singular do cinema de vanguarda norte-americano. Assisti ao longa Echoes of Silence e o curta Pestilent City, ambos de 1965.
Pestilent City é uma travessia infernal por Manhattan, um poema urbano que trespassa da decadência da Times Square à crueza das ruas do Harlem, capturando uma Nova York marginalizada e em frangalhos. Ruas povoadas por viciados, bêbados caídos pelas calçadas, trabalhadores exaustos e letreiros de cinemas exploitation de rua, intercalado com manchetes de jornais que relatam crimes brutais. Provavelmente era isso que o Scorsese tinha em mente quando compôs a atmosfera decrépita de Taxi Driver uma década depois.
É um ensaio vanguardista sobre a cidade como um cenário desumano e sufocante, mas com um certo lirismo, com a câmera inventiva de Goldman.
Echoes of Silence é impressionante. Uma joia poética do cinema underground, que arrancou elogios de figuras como Susan Sontag, Godard e até de Brian De Palma na época. A cena que um dos personagens visita um museu foi homenageada por De Palma em Vestida para Matar (1980). Filmado praticamente sem orçamento pelas ruas de Greenwich Village, Times Square e outros cantos da Nova York dos anos 60, acompanha jovens à deriva, vivendo suas vidas em busca de algum tipo de conexão. Num primeiro momento, me lembrou Shadows (1959), do Cassavetes, com uma sucessão de imagens embaladas pelo jazz, closes crus obsessivos dos rostos dos personagens pelas ruas e uma aparente indiferença em relação à narrativa tradicional. Mas aos poucos percebe-se uma voz muito única de Goldman e um radicalismo ainda maior na condução de tudo. Sem diálogos, trilha de Charles Mingus e música clássica, com uma narrativa fragmentada separada por capítulos, mistura improvisação, realismo documental de rua e lirismo visual para criar um retrato melancólico e de rara sensibilidadede sobre uma geração deslocada.
Enfim, me vi diante de uma obra-prima. E eu pretendo rever mais vezes. E quem sabe escrever algumas linhas a mais. Por enquanto, deixo aqui o texto do Jonas Mekas:
Sobre Peter Goldman e Echoes of Silence
Fevereiro vai se arrastando lentamente por Nova York. Não se sente grande entusiasmo no ar. Nem mesmo Red Desert, de Antonioni, o filme mais belo a estrear em Nova York nos últimos meses, foi capaz de despertar muita empolgação. Há uma certa apatia pairando no ambiente. Mas houve entusiasmo no teatro da Cinematheque na última segunda-feira. Houve aplausos calorosos depois que Peter Goldman, um jovem de cerca de vinte anos, apresentou uma sessão prévia de seu primeiro longa-metragem, Echoes of Silence.
Não é muito frequente surgir um novo cineasta com tanto potencial. Há várias coisas admiráveis em Goldman. Primeiro, o domínio e a sensibilidade que conseguiu imprimir em sua estreia. Segundo, o frescor que traz para a parte mais frágil do novo cinema: o cinema narrativo.
Tomando do cinema underground aquilo que ele tem de melhor (a liberdade de tema e de técnica) e combinando isso com algumas das melhores qualidades do cinema de Godard, Goldman conta uma história simples sobre alguns amigos: como vivem e o que sentem. Em uma série de observações, estabelece as relações entre seus personagens com objetividade e economia; faz com que eles ganhem vida de forma simples e convincente - mais convincente, aliás, do que muitos dos personagens encontrados no cinema de Chabrol ou Truffaut. Goldman, mesmo em seu primeiro filme, conseguiu evitar muitos dos perigos da abstração. Composto por uma série de episódios, cada um precedido por uma ou duas linhas de texto (à maneira de Viver a Vida, de Godard), e longe de ser perfeito em todos os seus aspectos, o filme possui uma beleza temática e formal notável. Uma das coisas mais belas é a forma como Goldman trata temas “proibidos”, como relações lésbicas e homossexuais. No cinema, normalmente esses assuntos acabam se tornando banais ou sensacionalistas. Aqui, eles são belos e tristes. O mundo retratado por Goldman é um mundo triste. Ao apresentar o filme, ele comentou que havia passado por um período de depressão e que o longa era um registro dessa depressão. E de fato é. Mas há beleza nessa tristeza. As relações lésbicas e homossexuais são retratadas com poesia, compaixão e verdade como em nenhum outro filme que eu conheço. Em termos de temática, Goldman deixa muitos cineastas para trás, ainda que seu filme possa ser facilmente criticado por imperfeições técnicas e formais.
Nossos novos cinemas de “arte” vivem divulgando declarações públicas sobre o interesse que têm por filmes novos e “incomuns”. Muito bem, aqui está a oportunidade de provar isso. Echoes of Silence merece uma exibição pública em Nova York, tanto pelo que apresenta quanto por servir de plataforma para um jovem cineasta de talento inegável. Há também outros filmes aguardando espaço para estrear, como Goodbye in the Mirror, primeiro longa de Storm De Hirsch, ou The Neon Rose, estreia de Barry Gerson. Nenhum deles é uma obra-prima, mas cada um é melhor e mais estimulante do que muitos dos chamados filmes de arte estrangeiros. Por que os nossos diretores precisam ser empurrados para o canto? Se me permitem ser dramático, eu diria: Cinemas de arte de Nova York! Por que vocês estão matando os jovens diretores americanos? Mas eu sei que sobreviveremos; serão os cinemas de arte que acabarão desaparecendo.
18 de fevereiro de 1966.
3.
Pra finalizar, revi From Beyond (1986), do Stuart Gordon. Disponível no Prime Video. Após o sucesso de Re-Animator, Gordon, o produtor Brian Yuzna e a dupla de atores Jeffrey Combs e Barbara Crampton se reuniram para outra adaptação livre e de H.P. Lovecraft. Na trama, o cientista Crawford Tillinghast (Combs) ajuda a desenvolver o “Ressonador”, uma máquina que estimula a glândula pineal e permite enxergar além da nossa percepção dimensional. O problema é que o experimento abre os canais para que criaturas de outra dimensão invadam a nossa realidade. E vice-versa.
É um espetáculo de horror cósmico transformado em fetiche visual e sexual. Os efeitos práticos de maquiagem e deformação corporal são muito bons. Combs e Crampton entregam atuações deliciosamente exageradas que equilibram perfeitamente o tom de humor, horror visceral e um toque de sadomasoquismo, sobretudo com a personagem de Crampton usando trajes de dominatrix, num dos momentos antológicos do filme. Sempre bom rever uns filmes do Gordon dessa fase.
E é isso pra começar, com agora pra Copa do Mundo. Então até a próxima semana… Se eu conseguir ver algum filme.





