NEWSLETTER #6
Algumas coisas que assisti nos últimos dias
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Gosto muito do Moretti. Lembro que vi O Quarto do Filho e fui atrás de tudo o que conseguia na época. Eram outros tempos, não tinha as facilidades de hoje. Estamos no início dos anos 2000 e só encontrei Caro Diário em VHS numa locadora de bairro onde morava. Um VHS da Look Filmes/PlayArte, com uma capa horrível. Mas o filme me pegou ali, de uma sensibilidade que eu ainda não tava tão acostumado. Moretti nos convida a passar um tempo com ele, e nem preciso dizer que o seguiria até o fim do mundo naquela lambreta. Recentemente me peguei pensando no filme, acho que há alguns meses ou no ano passado (?) saiu alguma notícia sobre a saúde do Moretti, não me recordo agora. Não vi alguns dos filmes mais recentes dele, mas só me veio na cabeça o Moretti andando de lambreta por Roma em Caro Diário. Resolvi rever agora pela primeira vez depois de todos esses anos e, como dizem por aí, foi como reencontrar um velho amigo. Sobretudo nos dois primeiros atos, enquanto ele flana pelas ruas de Roma e depois busca refúgio no arquipélago das Ilhas Eólicas com o amigo que não vê TV há trinta anos e termina o ato viciado em novelas americanas e noticiários. Algumas sequências que eu nunca esqueci: Moretti dançando e cantando numa padaria enquanto assiste Silvana Mangano numa TV; Moretti acordando o crítico de cinema no meio da noite pra questioná-lo se não tem vergonha na cara pelo modo como escreveu um texto sobre Henry: Portrait of a Serial Killer, de John Naughton; e, claro, Moretti rodando de lambreta ao som de Keith Jarrett até o local do assassinato de Pier Paolo Pasolini, um desses momentos arrebatadores do filme.
O terceiro ato é que eu havia apagado da mente e não é difícil saber porquê, é um episódio mais doloroso, o calvário pra descobrir e tratar um câncer. Mas ainda assim tem sua beleza, uma leveza adorável, Moretti é uma figura, e não tem como sair do filme sem a sensação de uma luz deslumbrante. Um brilho que reside na sua liberdade, que transforma a perambulação urbana num ensaio poético sobre a relação com o mundo, a alienação da sociedade moderna e a morte. Os três episódios parecem partir da questão de como continuar habitando um mundo que parece cada vez mais absurdo. Moretti responde observando, reclamando, rindo, andando de lambreta, indo ao médico quando é preciso e, sobretudo, tentando encontrar alguma beleza no cotidiano.
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Eaux d’Artifice (1953), de Kenneth Anger
No início dos anos 50, Kenneth Anger mudou-se pra França onde foi acolhido pela Cinemateca Francesa e por figuras como Henri Langlois e Jean Cocteau. Durante uma viagem à Itália, visitou os jardins da Villa d’Este, em Tivoli, construído no século XVI, famosos por suas centenas de chafarizes, cascatas e esculturas barrocas, e decidiu que filmaria ali seu próximo filme, este Eaux d’Artifice. Não é dos meus favoritos do diretor (vi poucos ainda, mas todos os outros que vi acho melhores), ainda assim é notável pela experiênia estética. Em seus 13 minutos, consiste numa mulher com roupas suntuosas caminhando por esse jardim azulado cercado por inúmeras fontes e água pra todo lado, uma das criações visuais mais marcantes e oníricas da carreira de Anger, que filmou com luz natural, registrando sombras dramáticas e um deslumbrante jogo de luz e tonalidades azuladas. Curioso saber que a atriz que Anger utilizou era uma pessoa com nanismo, pra fazer com que tudo ao seu redor parecesse ainda mais grandioso. E a decisão de usar o movimento Inverno, de As Quatro Estações, de Vivaldi, é uma escolha interessante pra fazer a composição rítmica da edição.
Film ist. (2004), de Gustav Deutsch
Dividido em 12 capítulos que faz uma investigação material e ontológica sobre a natureza da imagem em movimento, compilando fragmentos de centenas de filmes científicos, educativos, institucionais e de arquivo do cinema mudo. A experiência é hipnótica (tem a cena do olho, que quase me fez virar a cara, mas tudo bem), mostra o cinema como forma de enxergar e compreender o mundo e não apenas um meio pra contar historinhas.
Hapax Legomena I: (nostalgia) (1971), de Hollis Frampton
Já comentei sobre um outro filme da série Hapax Legomena do Frampton numa Newsletter anterior. Aqui, ele estabelece um dispositivo rigoroso, a câmera enquadra uma série de fotografias tiradas pelo diretor, colocadas, uma de cada vez, sobre a chapa quente de um fogão elétrico. Enquanto a imagem em papel queima lentamente e se degrada em tempo real diante da câmera, ouvimos na trilha sonora a voz de Michael Snow lendo a descrição das fotografias.
Só que há um descompasso entre a imagem que vemos e o que se ouve, porque Snow fala da fotografia seguinte, que ainda não apareceu na tela, o que dá um curto-circuito. Fiquei tentando memorizar o relato de uma imagem que ainda estava por vir enquanto assistia à destruição de uma foto cujo contexto já era passado, e vira cinzas antes mesmo de terminar de compreendê-las. Acaba sendo meio que uma meditação melancólica sobre a finitude das coisas.
3
Arqueologia pornográfica
Tenho um interesse meio bizarro em assistir exemplares dos primórdios do cinema explícito ou erótico, algumas produções até clandestinas que circulavam em bordéis e clubes privados, desafiando os tabus da época. Acho fascinante. Vou compilar aqui alguns títulos que vi recentemente:
La Coiffeuse (1905): Imagem de uma mulher com os seios nus escovando o cabelo.
Baden verboten (1906): Filme austríaco. Num plano estático, três jovens nuas brincam num lago, quando um homem surge entre as árvores e as expulsa dali. Elas saem da água, pegam suas roupas nos galhos das árvores e se afastam antes de vesti-las. E é isso.
El Satario (1907): Acho que esse é um dos filmes pornográficos mais antigo que eu consegui ver. Um grupo de jovem se diverte no campo, então, um sujeito com uma maquiagem que remete a um demônio aparece e força uma delas a receber e praticar sexo oral e, em seguida, a manter relações sexuais com ele. Depois, as outras mulheres retornam e o colocam para correr. Aparentemente é um filme argentino.
Sklavenmark (1907): Diante de uma tenda, um paxá sentado na grama, fumando seu narquilé, analisa a compra de algumas novas escravas, que lhes são apresentadas, despidas, e ele faz as suas escolhas. É do mesmo diretor de Baden verboten, Johann Schwarzer, um fotógrafo austríaco que fundou uma produtora chamada Saturn Films pra filmar essas produções eróticas para os cinemas austríacos que exibiam filmes adultos, as chamadas Herrenabende (sessões noturnas para homens).
Am Abend (1910): Esse aqui é um dos mais, digamos, depravados. Não fosse pela qualidade da imagem, poderia passar por um filme caseiro underground dos anos 60. Começa com uma mulher deitada numa cama que se masturba durante vários minutos. Em seguida, um sujeito entra no quarto, e os dois começam a se envolver em diversas atividades sexuais. Bom, pelo menos enquanto ele aguenta…
A Free Ride (1915): Aparentemente o mais antigo filme pornô hardcore preservado do cinema americano. Usa a estrutura básica das comédias pastelão (um motorista que dá carona para duas mulheres na estrada) como pretexto para uma sequência de sexo explícito ao ar livre. Uma bobagem quase ingênua (não fossem as cenas explícitas), mas é curioso é notar como a gramática do cinema narrativo de Griffith, com suas alternâncias de planos/enquadramentos, montagem, tá tudo aqui bem definido... Só que subvertida pra putaria.
Le menáge moderne du Madame Butterfly (1920): Uma paródia erótica da famosa ópera, apresentando um triângulo amoroso nada convencional entre Butterfly, um oficial e seu criado. Aparentemente é um dos primeiros pornôs narrativos a incluir cenas de bissexualidade. Uma subversão satírica e crua dos grandes temas dramáticos da época feita para o submundo de Paris.
Mousquetaire au restaurant (1920): Um mosqueteiro vai num restaurante e, em vez de comida, acaba se servindo das atendentes... Comédia de sexo explícito que usa o fetiche histórico para justificar a sacanagem. Mostra também como até os heróis nacionais da literatura francesa eram “profanados” nas telas clandestinas.
The Goat Man (1923): Sujeito caminhando pela praia avista três mulheres em trajes de banho e tenta convencê-las a fazer sexo com ele. Elas concordam, mas apenas se ele introduzir-se por um buraco numa cerca. O primeiro glory hole registrado? Enfim, no meio da brincadeira, as garotas colocam até uma cabra contra a cerca sem o cara saber. Uma loucura. Mais tarde, uma das garotas coloca um travesseiro sob o maiô para simular uma gravidez e consegue extrair dinheiro do homem.
The Casting Couch (1924): O título já diz tudo. Um filme sobre o Harvey Weinstein, antes do Harvey Weinstein nascer.
L'abbé Bitt au couvent (1925): Neste aqui há um certo humor satírico que ataca a hipocrisia religiosa. Tem freiras se pegando, padre comendo as freiras, tudo explícito.
L'heure du thé (1925): Duas mulheres e um homem desfrutam de um chá da tarde que rapidamente evolui para um jogo exploração sexual explícito. Um outro sujeito aparece pra participar e, no troca troca, rola homem com homem, mulher com mulher... Achei ousado pra época.
Forbidden Daughters (1927): Foi o único filme dirigido pelo fotógrafo Albert Arthur Allen, famoso na época por seus ensaios sensuais e nus artísticos. A trama é sobre uma mulher que sai em busca do marido perdido na África, mas que na verdade, tá de namorico com uma princesa de alguma tribo local. No final, a moça tira a roupa pro marido escolher com quem ele quer ficar... Enfim, é cinema de exploração em sua forma mais primitiva, a narrativa é apenas um suporte para a exibição de corpos femininos. Há uma sequência muito boa que se passa num harém de um sheik (?) onde as mulheres se exibem, dançam e termina com uma mulher nua esfaqueando outra mulher nua.
Le Pompier des Folies Bergères (1928): Esse aqui é um caso curioso. Foi realizado originalmente como uma peça promocional para o cabaré parisiense Folies Bergère e trata-se de uma pérola do cinema erótico do período e do surrealismo cômico dos anos 20. É sobre um bombeiro que, após assistir a um show e tomar uns copos a mais no bar, entra em uma crise de delírio e, para onde quer que ele olhe, vê mulheres nuas. O lance é que para além do tema picante da época, impressiona pelo uso dos truques visuais com sobreposições, fusões, cortes rápidos e uma câmera ousada pra materializar a obsessão e o descontrole do olhar bêbado masculino.
Messe Noire (1928): Uma encenação de um ritual satânico, uma “missa negra”, apresentada de forma alegórica, com figuras encapuzadas, símbolos ocultistas, inversões de iconografia cristã e que em determinado momento uma mulher nua é chicoteada por outra mulher nua num ritual de iniciação e depois todos participam de uma orgia, com cenas de sexo explícito. Isso tudo em 6 minutos de duração.
Elysia, Valley of the Nude (1933): Precussor dos nudie movies que ficaram mais populares entre os realizadores do cinema de exploração dos anos 60, como Doris Wishman. Elysia utiliza a fachada do "documentário educativo" pra contornar a censura e exibir nudez sem restrições quase no limite do código Hays entrar em vigor. A trama acompanha um repórter cético que visita um acampamento nudista real no sul da Califórnia e acaba se convertendo à filosofia do naturismo. Entre partidas de vôlei, banhos de sol e sermões sobre os benefícios da luz solar para a saúde, o filme faz também um registro sobre as frestas que o cinema de gênero encontrou para desafiar o puritanismo da época.
E chega por hoje!
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