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O que andei assistindo na última semana
1.
Dois filmes extraordinários que vi pela primeira vez esta semana:
O primeiro é From the Notebook Of… (1972), de Robert Beavers. Um ensaio poético, reflexivo e belíssimo sobre o próprio ato de filmar. Beavers estava fascinado pelos cadernos de Leonardo da Vinci, suas anotações, esboços e estudos geométricos e científicos, assim como pelo ensaio Introdução ao Método de Leonardo da Vinci, de Paul Valéry, que investiga a maneira como a mente do artista renascentista organizava o espaço, a luz e a invenção. Dessa dupla influência nasce a ideia do "filme-caderno". Assim como Leonardo usava suas páginas pra registrar pensamentos, testar perspectivas e desenvolver teorias sobre a luz, Beavers transforma sua câmera de 16mm num diário de anotações visuais. Ao longo do filme, surgem cartões manuscritos com instruções que o próprio cineasta escreveu para si, às vezes conseguimos ler as anotações, pra logo em seguida, Beavers colocá-la em prática com a câmera, fazendo movimentos rápidos, panorâmicas verticais e horizontais pelas fachadas dos edifícios, ruelas, telhados, que mimetizam o "olhar investigativo" do artista que mapeia o espaço ao seu redor. Ou usando o próprio quarto em Florença para testar a exposição da luz que entra pela janela... Enfim, um trabalho sobre as várias possibilidades do cinema, que oscila continuamente entre o ato de ler e o ato de ver, num trabalho de montagem, composições e movimentos magistrais.
Em determinados momentos, o filme toma o próprio cineasta como objeto, num autorretrato despido de qualquer vaidade. Mas que possui um toque de emoção no plano final, quando um reflexo no espelho revela Beavers ao lado de seu companheiro de vida, o lendário cineasta Gregory Markopoulos, com quem viveu até a morte dele, em 1992. Para além de toda a genialidade formal do filme, fiquei pensando nessa última imagem, em todas as vezes que Beavers projetou From the Notebook Of… ao longo das últimas décadas e no que deve sentir ao reencontrar Markopoulos, eternizado naquele último frame.
O segundo filme que medeixou sem chão foi La Vallée close (1995), de Jean-Claude Russeau. Rodado ao longo de quase dez anos em película Super-8, é um daqueles filmes que desafia a própria ideia de produção cinematográfica. Trabalhando completamente sozinho, Rousseau retornou inúmeras vezes à pequena comuna de Fontaine de Vaucluse, no sul da França, levando apenas uma câmera Super-8 e um gravador cassete. Hospedava-se sempre no mesmo quarto de hotel e, ao longo dos anos, acumulou imagens da paisagem, dos turistas, da rotina dos moradores e de sua própria presença naquele espaço, quase sempre isolado, fazendo misteriosas ligações telefônicas para alguém cuja voz nunca ouvimos.
Acho que tudo no filme nasce desse método paciente de observação, das escolhas de todo esse material filmado durante quase uma década. O que utilizar, o que deixar de fora, como organizar esse material na montagem, se vai fazer sentido, se precisa fazer sentido, e daí nasce essa maravilha que é La Vallée close, um filme composto de planos, quase sempre fixos, cuja câmera permanece diante do mundo até o fim dos rolos de película. Do tempo que se acumula dentro desses enquadramentos, o que aos poucos, aquilo que parecia imóvel começa a revelar pequenas transformações, uma mudança na luz, o vento atravessando a paisagem, a passagem de uma pessoa. Um grande nada. Mas que vale muito mais que um monte de um “tudo” do cinema convencional.
A escolha do Super-8 reforça essa experiência. Rousseau abraça a granulação da película e as imperfeições do suporte. Os planos duram o tempo permitido pela bobina de filme, às vezes a tela fica preta, há a troca do rolo, e volta a imagem para o mesmo enquadramento. O filme avança no acúmulo desses longos planos, correspondências visuais e sonoras (de vez em quando surge alguma narração, que acredito seja do Russeau, sobre alguma coisa em particular), recusando a ideia de que toda imagem precise servir a uma história/trama/narrativa. Em vez disso, Rousseau transforma o filme num dos mais belos exercícios de contemplação que eu já vi.
2.
Sem o mesmo impacto desses dois aí em cima, vi também o belo I… (1995), de Stan Brakhage. Faz parte de uma trilogia junto com We Hold These e I Take These Truths, todos já da fase que Brakhage pintava à mão livre quadro a quadro sobre a película. O título I... (Eu…) funciona até como uma provocação, já que o espectador desavisado pode esperar uma confissão autobiográfica ou um autorretrato, enquanto o diretor entrega a total dissolução da identidade. Um filme que é um turbilhão caótico de micropinturas abstratas em alta velocidade, que afeta a percepção, nos força a encarar com uma visão primitiva, selvagem e livre as mais variadas formas e cores que vão passando pela tela ao longo dos seus quase 30 minutos.
Deixo aqui um comentário do Fred Camper:
I..., propõe uma imagem instável do eu através de suas colisões sem centro de imagens diversas. Pequenas formas negras são sobrepostas a cores difusas, e cada momento parece consumir e obliterar o anterior em um fluxo emocionalmente carregado que sugere uma consciência aterrorizada pela estagnação e perpetuamente em busca de renovação.
3.
Essa semana não vi nenhum Chuck Norris. Em compensação, vi dois filmes mais recentes. Sem pressa alguma, só agora parei pra assistir ao horror australiano Talk to Me (2022) de Michael e Danny Philippou, sobre um grupo de adolescentes que descobrem como invocar espíritos usando uma mão embalsamada e se tornam viciados nessa nova experiência. Quando um deles vai longe demais, acaba fazendo contato com a mãe de um deles, recém falecida, e acaba libertando forças sobrenaturais que fogem do controle da rapaziada. Acho que o filme começa bem e o conceito do horror, da forma como entram em contato com os mortos, é bem interessante. O que culmina na sequência do moleque tentando estourar a própria cabeça, que é ótima. Mas aos poucos vai se perdendo um pouco, meio que vira um filme de mensagem moralista embalado como um "terror elevado". E a sequência final na rodovia é muito fraquinha.
Eu cheguei a ver o filme seguinte dos dos irmãos Philippou, Bring Her Back (2025), e lembro que também elogiei o tal do "conceito", mas que era outro filme bem mais ou menos. Pelo visto é isso, gente, trabalhar melhor esses conceitos aí pra não perder nosso tempo com esses filmes bunda mole.
O outro filme recente que vi foi The Furious (2025), de Kenji Tanigaki, que eu tava aguardando com certa animação. A pancadaria demonstrada no trailer parecia ser de um nível de impressionar. E realmente é na sua mairoia. Mas o filme em si não é pra tanto… Queria ter gostado mais. Não é ruim, é até recompensador como cinema de artes marciais, conduzido por gente realmente apaixonada pelo que faz. Um exercício de ação, do cinema de impacto físico, direto, sem muitos rodeios, que narra a jornada brutal de um pai que precisa cruzar o submundo do crime pra resgatar sua filha, e que serve mais de pretexto pra alinhar uma sucessão de sequências de lutas violentas.
Mas a única sequência que realmente me deixou grudado na tela foi a final, uma das melhores que eu vejo em muito tempo, sobretudo com a presença do Yayan Ruhian, o Mad Dog de The Raid (2011), e um gordinho que chega pra bagunçar a lógica dos duelos de artes marciais. De resto, eu tenho algumas questões com o andamento da coisa, em como resolvem certas situações, algumas escolhas de roteiro, a cena da moto com a menina na garupa, por exemplo, é um troço constrangedor (aliás toda essa sequência eu achei bem meia boca), não vou nem falar da parte dramática porque acho que nem o próprio filme liga pra isso... Então, assim, tá bem longe de ser o novo The Raid que muita gente pinta por aí. Vamos com calma. Tirando a sequência de ação final, que é um primor, The Furious tá no máximo no nível dos filmes que o Timo Tjahjanto fez na Indonésia. O que tá de bom tamanho.
É isso.
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