NEWSLETTER #3
O que andei assistindo na última semana
Entregando essa Newsletter um pouco atrasada, mas tá valendo. Me perdi aqui nas análises de cobertura da derrota da seleção pra Noruega ontem… Mas quem diria, não é mesmo? Numa seleção que tem Neymar, alguém acreditava em algo diferente? Enfim, vamos aos filmes…
1.
Eu esqueci completamente de comentar na última Newsletter que assisti a Underworld U.S.A (1961), do Samuel Fuller. Tinha uns vinte anos que não assistia e aproveitei pra rever no Bar Soberano, na Rua do Triunfo, na Sessão do Comodoro, que acontece sempre na última sexta do mês. Não lembrava de muita coisa do filme, então foi um prazer rever, é um grande trabalho do Fuller, um verdadeiro deleite para os olhos, com a fotografia do veterano Hal Mohr. Desenvolve uma sombria história de vingança que me deixou grudado na poltrona até o fim.
São várias sequências notáveis, com a precisão dos enquadramentos de Fuller, alguns dos mais belos planos da carreira do homem. Sempre com aquela camada de ironia que atravessa os seus filmes, com comentários mordazes sobre seus personagens. A sequência da perseguição trágica entre o carro do assassino e a bicicleta de uma garotinha é um desses momentos que impressiona, tanto pela situação quanto pelo talento de Fuller de chocar sem apelar. O assassino, vivido por Richard Rust, possui uma característica inconfundível, sempre coloca os óculos escuros antes de tirar a vida de alguém. Desses detalhes de composição de personagem que eu adoro. O plano perto do fim, em que Tolly (o protagonista de Cliff Robertson) cambaleia pelas ruas seguido pela câmera implacável de Fuller num plano sequência é digno de antologia. Mas Fuller também encontra espaço para um lirismo inesperado, especialmente na relação entre Tolly e Cuddles (Dolores Dorn). Depois de esnobá-la cruelmente, Tolly relembra as palavras de Cuddles que finalmente conseguem tocar seu coração:
“Algumas mulheres coram quando beijam. Algumas chamam a polícia. Algumas xingam, algumas mordem, algumas riem, algumas choram. Eu... eu morro. Tolly, eu morro por dentro quando você me beija.“
Baita texto. Baita filmaço.
2.
Vi mais um Godard, Le Gai Savoir (1969). Ele só precisa de um cenário preto, Juliet Berto, Jean-Pierre Léaud e um bombardeio de colagens que misturam quadrinhos, fotografias de jornais, slogans políticos, anúncios publicitários e ruídos pra realizar sua investigação sobre as palavras e as imagens. O objetivo não é bem contar uma história tradicional, mas demonstrar como os meios de comunicação de massa colonizam o pensamento através dos signos burgueses.
O projeto nasceu quando a ORTF (a corporação de rádio e televisão estatal francesa) encomendou a Godard uma adaptação livre do tratado pedagógico Emílio, ou Da Educação, de Jean-Jacques Rousseau, mas quando Godard começou a rodar o filme, acabou usando o dinheiro pra fazer experimentações radicais com a linguagem cinematográfica, televisiva e da propaganda institucional. Ao entregar o produto, obviamente a ORTF não apenas rejeitou, como se recusou a exibir o filme em território francês. Godard acabou forçado a comprar os direitos pra poder distribuí-lo de forma independente nos cinemas e em festivais internacionais. Confesso que não é um filme fácil. Exige uma postura mais analítica pra acompanhar, e talvez até apreciar, esse manifesto que, mais do que discutir certos temas, propõe reinventar o cinema tradicional, como se fosse preciso recomeçar tudo do zero.
3.
Mais um Straub/Huillet pintando por aqui. Revi Othon, ou Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer, ou Peut-être qu’un jour Rome se permettra de choisir à son tour (1970) e tenho uma questão pessoal com esse filme que me impede de apreciá-lo plenamente. Mas a culpa é minha, não do filme. O lance é que os versos alexandrinos de Corneille são recitados pelos atores num ritmo muito acelerado, sem modulação dramática. Sem dominar o francês, acabo dependendo da legenda, que inevitavelmente atenua a força da radical operação linguística proposta pelo casal. A primeira vez que vi, há uns dez anos, a legenda já era terrível, o que prejudicou ainda mais a experiência. Agora revi numa cópia melhor e com legendas melhores. Mas mesmo assim...
De todo modo, há um elemento com o qual eu consigo me conectar, que se sobressai dessa reserva e eleva Othon ao patamar de obra-prima incontestável: a câmera.
Das mise en scène mais perfeitas que já vi. Quando a câmera dá aquela primeira aproximada no rosto do Adriano Aprà inicia o encantamento, que permanece até o fim. O rigor da câmera é um troço impressionante, transcendental. O casal praticamente elimina qualquer movimento supérfluo, um pequeno deslocamento lateral, uma mudança de eixo ou a simples entrada de um personagem em quadro altera completamente o equilíbrio visual da cena, a forma como as imagens são emolduradas. Na maneira como somos obrigados a observar a duração dos planos, a circulação das palavras e a relação entre essas figuras e as paisagens. Othon exige um olhar ativo, poucos cineastas confiaram tanto na inteligência visual de quem assiste. Que aliás, rejeita também qualquer ilusão de reconstrução histórica, os personagens vestem túnicas romanas, mas ao fundo escutamos as buzinas, o trânsito, vemos os veículos e a vida da cidade moderna, tudo existe simultaneamente. E tudo existe à perfeição. Pra ficar melhor, só aprendendo francês e conseguindo assistir a isso aqui sem legenda...
4.
Uma descoberta maravilhosa: Hapax Legomena III: Critical Mass (1971), de Hollis Frampton. Um dos monumentos mais interessantes do cinema estrutural americano. Parte de uma premissa dramática banal, um casal de atores improvisa uma discussão doméstica num estúdio vazio, enquanto Frampton submete o material a uma operação de montagem hiper agressiva, cortando a película em intervalos regulares, fazendo com que a imagem e o som avancem e retrocedam em loops rítmicos secos, numa verdadeira autópsia do plano cinematográfico. Ao repetir e estilhaçar frases e gestos, a discussão deixa de funcionar como um drama realista e passa a ser determinada pela violência da própria montagem sobre a película. O descompasso entre áudio e imagem cria uma barreira de ruído e repetição que esvazia o sentido literal do que está acontecendo, obrigando o espectador a encarar a materialidade do cinema e a repensar os próprios mecanismos da montagem.
5.
“Now she is thinking of his penis again.“
Outra maravilha do cinema experimental americano que conferi esses dias foi Film About a Woman Who… (1974), de Yvonne Rainer. Apresenta um jogo de relações, mas qualquer interesse pela narrativa convencional é abandonada. O que surge é um ensaio fascinante sobre os clichês do amor, repressão sexual e os jogos de poder entre homens e mulheres. Vozes em off, textos datilografados, fotografias estáticas e cenas que parecem pequenas performances criam um fluxo desconcertante. Os longos silêncios em situações de rara beleza poética (as cenas na praia e outras externas) ou sequêncais desconfortáveis, como a que a mulher é despida numa espécie de ritual perfomático, além da fotografia de Babette Mangolte, tornam tudo ainda mais inquietante. Um dos exercícios de desconstrução feminista mais radicais e complexos do cinema americano dos anos 70.
6.
Vi pela primeira vez O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), do Glauber Rocha. Funciona como uma continuação espiritual de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), que é outro eu preciso rever, já deve fazer mais de vinte anos, mas substitui o fervor revolucionário por uma reflexão mais melancólica sobre redenção e despertar político. Antônio (Maurício do Valle), antes um jagunço a serviço dos latifundiários, reencontra os cangaceiros e, ao conviver com os oprimidos, percebe que tá do lado errado da história. Sua jornada deixa de ser a de um mercenário e passa a ser a de um homem que busca uma transformação, um home que quer deixar o passado pra trás. Glauber transforma essa trajetória numa releitura interessante do western, antecipando algumas coisas do acid western, de um El Topo (1970), de Alejandro Jodorowsky, mas ao mesmo tempo desmonta as convenções do gênero, mistura alegoria política, religiosidade popular, teatro, música e poesia. O sertão deixa de ser apenas um cenário para se tornar um espaço mítico de luta de classes, e entre coronéis, jagunços e cangaceiros, que ganha a dimensão de uma fábula. A lenda de São Jorge e o Dragão atravessa todo o filme, Antônio começa como o “dragão”, a serviço dos poderosos, mas termina ao lado do “santo guerreiro” e dos excluídos. Na cena em que o coronel é morto por Antão com uma lança, evoca diretamente a lenda.
Glauber atinge um nível estética absurdo, trabalhando pela primeira vez com cores, com uma encenação barroca primorosa (o duelo de facões que parece mais uma dança ritual é desses momentos notáveis) criando um sertão de política, religião e cultura popular onde tudo se entrelaça. É um filme que amplia esse universo particular iniciado em Deus e o Diabo…, mas que, sobretudo, demonstra um diretor inquieto, dos mais originais, não apenas do cinema nacional, mesmo num registro mais popular e acessível. Gênio.
Deixo aqui o comentário de Jonas Mekas sobre o filme:
Fico me perguntando que tipo de cegueira fez com que este grande filme passasse despercebido no Festival de Grove! Ah, que diferença entre todos aqueles novos filmes comerciais estúpidos e Antonio das Mortes. Aqui há um filme de carne e osso. Um filme que trata de algo muito, muito real. Talvez você não compreenda exatamente o que essa realidade é, mas pode senti-la pulsando. Antonio das Mortes é um filme belíssimo e profundamente verdadeiro. É também um filme profundamente político. Como todos os documentários e cinejornais parecem pálidos quando comparados ao filme de Rocha. Esses cinejornais, extraídos da vida real e dedicados a criticá-la e atacá-la, acabam parecendo mais apagados e sem vida do que um filme que utiliza um estilo declaradamente ficcional. Politicamente e em termos de temperamento, a obra de Rocha da qual mais me lembro é o curta-metragem que LeRoi Jones realizou para a PBL sobre Newark, um ano atrás.
6.
E pra não perder o costume, mais um Chuck Norris, seguindo a filmografia do homem. Revi Missing in Action 2: The Beginning (1985), lançado no Brasil como Braddock 2: O Início da Missão. Foi produzido simultaneamente com o primeiro filme, de Joseph Zito, e originalmente planejado para ser lançado antes, mas acabou remanejado pela Cannon Films para ser lançado como prequel. Agora, sob a direção de Lance Hool, a narrativa retrocede no tempo pra mostrar os anos de cativeiro do Coronel James Braddock (Chuck Norris) num campo de prisioneiros norte-vietnamita de segurança máxima após o fim oficial da guerra, culminando na sua fuga violenta.
Não é nenhuma maravilha, mas como foca na brutalidade psicológica e na resistência quase sobre-humana de Braddock e outros prisioneiros diante dos abusos de um sádico Coronel, vivido por Soon-Tek Oh, acaba sendo também um filme bem mais interessante que o anterior, cujos problemas aponto na última newsletter. É um filme que tem um andamento mais cadenciado que valoriza a tortura e a humilhação para justificar a explosão catártica do terço final. E o Chuck Norris, dentro do que o papel exige, está muito bem. Passa boa parte do filme sendo humilhado, sujo, magro, barba desgrenhada, um aspecto completamente acabado, convencendo como um prisioneiro de guerra. E quando finalmente chega a hora de entrar em ação, funciona. As sequências de ação do terço final não estão entre as mais inspiradas do gênero nos anos 80, mas compensam pela quantidade de tiros, emboscadas na selva, acampamentos inimigos sendo reduzidos a escombros e Norris fazendo exatamente o que se espera dele. É simples e divertido, entrega o que se propõe sem grandes destaques.
É isso pra essa semana. Fiquem bem.
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