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O que ando assistindo na última semana
A Copa do Mundo continuou ao longo da semana, e eu segui dividindo meu tempo entre os filmes e as partidas. Pelo menos agora começaram os mata-matas, então acredito que finalmente vou conseguir retomar um ritmo mais normal de sessões.
1.
Assisti a Kiss (1963), do Andy Warhol. O que dizer? Warhol faz uma desconstrução do clichê cinematográfico de Hollywood, isola o beijo, um ápice dramático do cinema, e transforma numa performance estendida e repetitiva, que esgota o sentimentalismo tradicional e transforma o ato numa textura visual. Consiste numa série de planos fechados de vários casais (heterossexuais, homossexuais e inter-raciais) se beijando por cerca de alguns minutos cada, a 16 quadros por segundo, intensificado o caráter hipnótico da coisa. Fascinante.
2.
Vi o primeiro trabalho do casal francês Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Eu acho fascinante a trajetória deles, marcada por uma combinação de radicalidade artística e intransigência política. Straub surgiu da efervescência cinéfila parisiense dos anos 1950, trabalhou como assistente de direção de Robert Bresson, Jean Renoir e Jacques Rivette, até conhecer Huillet, estudante de cinema de personalidade, que se tornaria sua parceira absoluta de vida e codiretora. O casal foi parar na Alemanha em 1958, quando Straub se recusou a lutar na Guerra da Argélia e desertou do exército francês.
Foi nesse contexto que realizaram o curta Machorka-Muff (1963), o primeiro filme deles. Adaptando um conto satírico de Heinrich Böll sobre a reintegração de um ex-coronel nazista à elite alemã, o filme tem ao mesmo tempo aquele rigor formal que definiria Straub/Huillet como cineastas únicos, mas com um humor, uma certa leveza esquisita. Quem já conhece sabe que eles têm filmes que podem ser mais difíceis de acessar, mas esse aqui é curiosamente mais tranquilo. Tem uma sequência de sonho belíssima no início, que me lembra um Jean Cocteau. E é engraçado, por exemplo, a relação desse general com uma mulher divorciada sete vezes, que ele justifica dizendo possuir sete ferimentos de guerra. Enfim, detalhes que torna isso aqui um troço muito bom. Curta que não apenas marcou o início de uma das filmografias mais desafiadoras da história do cinema, mas também funciona como um farol estético que antecipou e moldou a urgência do Novo Cinema Alemão. Tá com 20 minutinhos sobrando? fica a dica desse primeiro Straub/Huillet. Tem no YouTube.
3.
Acabei de ver, agora há pouco, Amore e Rabbia (1969), filme de episódios, com aquela toada estética/ideológica fervilhante da Europa do final dos anos 60, marcada pelo espírito do Maio de 68. Quatro diretores italianos politizados e vanguardistas, Pier Paolo Pasolini, Marco Bellocchio, Bernardo Bertollucci e Carlo Lizzani, mais um francês, o Godard, que dispensa apresentação, assinam os segmentos que debatem um monte de coisa: o fervor revolucionário, a hipocrisia burguesa e as contradições da fé cristã.
Meu destaque é para o episódio do Godard, com aquelas cores belíssimas, radicalizando a linguagem e o distanciamento brechtiano. Bertollucci e Bellocchio fazem algo próximo a happenings performáticos que traduzem a agitação estudantil e ambiguidades éticas do cristianismo, mas são também os episódios mais fracos e enfadonhos. Pasolini faz uma sinfonia urbana lírica com seu ator fetiche Ninetto Davoli caminhando por Roma, as questões políticas aparecendo como uma presença constante, rondando a vida cotidiana sem jamais penetrá-la de forma direta. E acho curioso o Carlo Lizzani, que ficou mais marcado pelo cinema policial, um dos grandes nomes do poliziesco, e aqui faz um ensaio brutal sobre apatia urbana.
4.
Neste post eu fiz uma peregrinação inicial pelo cinema de Chuck Norris. Essa semana eu dei sequência a mais três filmes.
Foi a primeira vez que assisti a Forced Vengeance (1982) e, sem brincadeira, é facilmente um dos melhores veículos do Norris. Ele faz o chefe de segurança de um cassino em Hong Kong que, depois de uma merda envolvendo seus amigos/empregadores, que acabam assassinados, o sujeito precisa cruzar o submundo local pra se vingar, proteger a filha do amigo morto das garras do sindicato do crime organizado e lidar com uma corja de assassinos que surge em cada esquina.
O experiente James Fargo extrai o melhor de tudo o que é possível desse material, do cenário asiático à própria performance de Norris. O visual de Hong Kong é belíssimo e há uma sequência de luta filmada em silhueta, na frente de um letreiro luminoso gigante, que é tão boa que aparece duas vezes no filme (aproveitaram pra usá-la no pré-créditos), e me lembrou da luta em silhuetas de Skyfall (2012), de Sam Mendes. Norris entrega uma de suas atuações mais fisicamente imponentes e temos uma abundância de lutas, a maioria bem coreografada e, na medida do possível, com um certo realismo, sem grandes excessos. O mais próximo que o cinema de Norris chegou de um filme de Hong Kong, não só em termos de locação, já que o filme se passa lá, mas em espírito mesmo. O que significa que ainda tá muito abaixo do nível dos filmes produzidos por lá, mas só o fato de me fazer remeter isso, já o coloca na prateleira de cima na filmografia de Chuck Norris.
Lone Wolf McQuade (1983) Funciona praticamente como o protótipo do que viria a ser a persona mais famosa de Norris na cultura pop, um Ranger do Texas de métodos nada ortodoxos e isolado do mundo, que precisa desmantelar uma quadrilha de tráfico de armas internacional operada no local. Percebe-se claramente que o roteiro original renderia um filme mais genérico, mas acredito que o trabalho de duas figuras envolvidas tenham contribuído pra dar um up no material: a contribuição de John Milius no roteiro e a direção de Steve Carver. Eu aposto que foram eles que deram ao filme essa cara de faroeste moderno, fortemente influenciada pelos clássicos de Sergio Leone. O ritmo, a poeira do deserto e a trilha do Francesco De Masi operística ditam a cadência da narrativa. Sempre considerei um dos melhores filmes do Norris, e continua sendo nessa revisão, embora alguns detalhes tenham me incomodado um pouco, sobretudo algumas escolhas do roteiro em relação à desnecessária quantidade de persoangens, o que pra mim ressalta que o material original não era tão bom.
Mas continuo gostando bastante, até porque é impossível ficar indiferente quando temos a presença magnética de David Carradine como o vilão principal, com seu cinismo funcionando como o contraponto perfeito à rigidez de pedra de Norris. O confronto final entre os dois, um balé de artes marciais sob o sol do deserto, eleva o filme de um simples thriller policial/ação pra um épico de rivalidade mítica, celebrando o encontro de duas lendas do cinema de gênero.
E finalmente Chuck Norris adentra a Cannon com Missing in Action (1984). No Brasil conhecido como o famoso Braddock - O Super Comando. Essa revisão depois de algumas décadas serviu pra confirmar uma certa impressão que eu tinha. A de que o filme não é lá grandes coisas, que não resistiria ao tempo, ao olhar de criança, de ser algo divertido de se ver quando se tem 6 anos de idade nos anos 80. Mas ao mesmo tempo, amenizou um pouco essa mesma impressão. Não achei um filme tão murrinha assim. E em alguns momentos até me peguei bastante interessado pela trama, nesse Norris triste e amargurado, que parte numa missão solo pra resgatar prisioneiros de guerra americanos ainda mantidos em cativeiro nas selvas vietnamitas. Muita gente fala que o Braddock é um Rambo da Shopee, e não deixa de ser mesmo, mas a trama, que tem similaridades com Rambo II, foi lançado um ano antes deste veículo de Sylvester Stallone... Quem copiou quem? Fica a questão.
No mais, Joseph Zito conduz tudo com o pragmatismo e a secura do cinema B do período, não se preocupa muito em dar espaço pras nuances geopolíticas que o filme evoca. Funciona mais como uma fantasia revisionista de catarse militar americano bem ao estilo da era Reagan. Há algumas boas sequências de ação, percebe-se porque Norris se tornou essa figura iconográfica de metralhadora em punho, e não deixa de ser um filme que definiu a estética do cinema de ação reacionário oitentista que dominou as locadoras da época. Mas quando os créditos finais aparecem na tela naquele freeze frame, percebe-se que é um escapismo dos mais bobos. A última meia hora é uma das piores sequências de ação da carreira no Norris, dá a impressão de que todo mundo tava numa preguiça danada de filmar cada cena. É a sensação que acaba ficando ao final. Gosto mais das cenas na Tailândia, Norris vagando pelas ruas, o néon, as boates de strip tease... Pena que o filme não se permite ser mais sobre isso.
É isso. Por aqui a gente começa com Andy Warhol, Straub/Huillet e termina com Chuck Norris na Cannon… Sem briochice. Seguimos, como diria Carlão Reichenbach, com o Olhos Livres.
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