Bresson II/II
Os filmes coloridos
Une femme douce (1969)
É o filme que marca a estreia do homem nas cores. Mas também uma transição para um cinema mais urbano e contemporâneo. A narrativa começa pelo fim, o suicídio de uma jovem mulher, e se reconstrói através das lembranças fragmentadas de seu marido, um penhorista dissertando sobre as razões da tragédia. Aos poucos, o filme revela uma relação fundada na incomunicabilidade, algo que Bresson afirma ser o seu maior interesse no projeto. O marido tenta possuir e controlar a esposa, reduzindo sentimentos e gestos a algo que possa ser administrado, como os objetos que negocia na sua casa de penhores, enquanto ela permanece como uma presença indecifrável. Bresson pega o conto A Mansa, de Dostoievski, e transforma essa dinâmica num estudo gélido sobre o fracasso humano em conhecer verdadeiramente o outro. Utiliza a cor pra substituir os contrastes do preto e branco e criar uma nova forma de rigor visual, como se estivesse se adaptando aos novos tempos sem abrir mão de sua essência.
E portas. Há muitas portas abrindo e fechando, um detalhe visual obsessivo que começa aqui e vai ter presença garantida em todos os filmes contemporâneos do sujeito.
Quatre nuits d'un rêveur (1971)
Uma das encarnações mais bonitas de Noites Brancas, de Dostoiévski. Até cheguei a pensar que, por eu já conhecer a história, não teria o mesmo impacto, mas com Bresson tudo é possível. Acompanhamos um jovem artista que, durante quatro noites, encontra e escuta uma moça obcecada por outro homem. Ele se apaixona por ela, mas o filme se afasta do romance tradicional pra ser mais um estudo sobre a fantasia e a realidade que se passa na cabeça do rapaz com esse possível romance. Com interpretações depuradas, gestos mínimos, aquele abre e fecha de portas incessantes que mencionei, e uma Paris noturna rarefeita, Bresson filma o enamoramento como algo delicado, mas sempre à beira de se desfazer ao amanhecer.
Uma sequência curiosa: o filme traz a primeira, e talvez única, sequência de tiroteio de toda a filmografia de Bresson. Ela surge quando a protagonista vai ao cinema e assiste a um filme repleto de homens trocando tiros de maneira deliberadamente desajeitada. Tudo indica que a intenção era pra ser ruim mesmo, já que na trama a personagem deveria sair da sala dizendo que caiu numa armadilha... Mas, confesso que observando aquelas imagens do filme dentro do filme, achei tudo muito divertido. Mesmo quando tenta encenar algo propositalmente mal feito, Bresson acaba encontrando um jeito de torná-lo interessante. Mesmo tentando ser ruim, ele continua sendo bom.
Lancelot du Lac (1974)
Bresson retorna ao filme de época pra desconstruir os mitos de Camelot, Rei Arthur, foca no retorno fracassado dos Cavaleiros da Távola Redonda após a busca infrutífera pelo Santo Graal e mergulha tudo isso numa espiral de decadência. Obviamente o diretor se afasta de qualquer espetáculo medieval hollywoodiano. tudo é muito mundano. E concentra o seu olhar num Lancelot dividido entre fé, honra e desejo por Guinevere, preso num código que já não faz sentido. É sobre cavaleiros que depois de falharem, voltam tristes para casa e descobrem que ser herói é muito mais difícil do que parece nas lendas. É também sobre o peso físico e o ruído das armaduras de metal, só se ouve o ranger constante do ferro, os cascos dos cavalos e o impacto seco das lanças, mas raramente vemos as batalhas. Só corpos e sangue e cavaleiros cujos rostos permanecem ocultos pelas viseiras na maior parte do tempo, são engrenagens impessoais de uma tragédia inevitável. Ao retirar a glória e o heroísmo da lenda, Bresson entrega um ensaio brutal sobre a falência das utopias espirituais e a autodestruição humana.
Le Diable probablement (1977)
Já tinha visto esse, mas não perde a força. Não recomendo num dia deprê... Um dos retratos mais frios e lúcidos do desencanto juvenil e um dos mais pessimistas de Bresson, o que quer dizer muita coisa, ainda mais depois de ver os filmes do homem em ordem cronológica em pouco tempo. É sobre esse jovem que vaga por Paris sofrendo por enxergar as coisas com clareza demais, cético em relação ao mundo, incapaz de se comprometer com qualquer causa e acreditando tão pouco na vida quanto na morte. Tenta se agarrar a algumas coisas que encontra pelo caminho, mas os breves momentos de prazer apenas reforçam seu sentimento de vazio e sua atração pela ideia de morte. Sem fé, sem ilusões e sem qualquer revelação capaz de redimi-lo, o rapaz segue inevitavelmente em direção ao seu destino e mesmo nos momentos finais não surge qualquer pensamento ou revelação.
Bresson transforma essa deriva existencial num filme austero, mas devastador, cheio de suas obsessões visuais. Mãos, gestos, portas, uma montagem absurdamente transcendental, como na cena do ônibus. Há um momento em que em três planos, umas seis portas foram abertas e fechadas... Nunca na minha vida achei que ia ficar tão fascinado com portas se abrindo e fechando. Interpretado por jovens atores de um apatia quase fantasmagórica, é um registro implacável de alguém que já não encontra razões para permanecer no mundo.
L’Argent (1983)
O último filme de Robert Bresson é mais uma obra-prima entre várias que o diretor concebeu. Quando comecei essa maratona, era o meu favorito do homem. Mas vi Au Hasard Balthazar pela primeira vez e revi o filme acima, O Diabo Provavelmente, já um pouco mais maduro, o que me fez mudar o ranking. Mas continua uma das grandes obras do cinema, sem dúvida.
Inspirado num conto de Liev Tolstói, acompanha como uma nota falsa de 50 francos, introduzida no comércio por dois jovens burgueses, desencadeia uma reação em cadeia que afeta a vida de um monte de gente e destrói, sobretudo, a de um trabalhador inocente, empurrando-o para a criminalidade e para a degradação moral absoluta. O dinheiro aqui como uma força metafísica, que corrompe todas as relações humanas e substitui a graça divina que redimiu muito dos “heróis” bressonianos, pela fatalidade. A câmera de Bresson, como habitual, persegue as transações, as mãos que passam as notas e os objetos com precisão. E obviamente, o último plano, o último enquadramento, a última imagem, do último filme do Bresson, só poderia ser uma porta... O que acaba fazendo todo o sentido.
Então, tudo aqui funciona como o testamento definitivo do diretor, já octogenário, mas que tinha ainda um projeto pela frente que nunca conseguiu tirar do papel, baseado no livro de Gênesis, que exigia um orçamento maior que seus trabalhos habituais. Mas os tempos eram outros nos anos 80, o mercado cinematográfico europeu estava mudado e levantar dinheiro pra um projeto desse porte, mesmo pra um Bresson, tava complicado... Portanto, fim da maratona.







