Bresson I/II
Os filmes P&B
Depois da longa maratona Richard Fleischer, no mês de maio/26 resolvi pegar um diretor de filmografia mais curta pra peregrinar. E como meu coração tem lugar tanto pra Jean-Claude Van Damme quanto Jean-Luc Godard, ao mesmo tempo que posto sobre Chuck Norris e Brucesploitation, escolhi ver os filmes do Robert Bresson pra publicar aqui também.
Mas foi fascinante ver e rever a obra do homem em ordem cronológica. E resolvi fazer dois posts por aqui, pra externar essa experiência. Neste primeiro, vamos com os filmes em preto e branco. futuramente, faço um com os filmes coloridos.
Les Anges du péché (1943)
Estreia de Robert Bresson em longas. Apesar de ser carregado dos diálogos dramáticos de Jean Giraudoux e uma cinematografia mais expressionista do que suas obras posteriores, já demonstra um rigor formal e algumas obsessões do homem. Narra a trajetória de Anne-Marie, uma jovem idealista que ingressa num convento dominicano dedicado à reabilitação de ex-detentas. O foco do filme acaba sendo sua relação obsessiva com Thérèse, uma prisioneira recém-libertada que não demonstra qualquer desejo de redenção. Ao contrário, na primeira oportunidade compra uma arma e mata à sangue frio o responsável por tê-la feito ir em cana. Uma cena belíssima.
Diferente do minimalismo radical que Bresson adotaria em clássicos futuros, aqui ainda vemos uma encenação tradicional e uma narrativa mais convencional de conflito psicológico. Mas o embrião do seu “estilo transcendental” tá presente em certos aspectos, na economia de gestos, nas elipses, na austeridade do ambiente monástico e na exploração do sacrifício como única via para a salvação espiritual. Não deixa de ser um drama psicológico denso e visualmente elegante que funciona como a ponte perfeita, já neste primeiro trabalho, entre o cinema clássico francês e a ascensão de um dos autores mais singulares da história do cinema.
Les Dames du bois de Boulogne (1945)
Bresson adapta um episódio de Diderot pra construir um drama de vingança amorosa e manipulação. Narra a maquinação de Hélène, que, após ser desprezada pelo amante, planeja humilhá-lo ao induzi-lo a casar-se com uma jovem prostituta. Problemas aristocráticos…
Ainda é um filme de transição estilística do Bresson, não há aquele distanciamento que viria a seguir, mas a frieza moral já tá toda aqui, além de diálogos escritos por Jean Cocteau e a encenação calculada, que purifica o melodrama de excessos sentimentais. É um estudo gélido sobre o orgulho ferido, cuja sobriedade da câmera de Bresson transforma uma intriga mundana numa tragédia sobre a impossibilidade de governar o destino humano.
Journal d'un curé de campagne (1951)
Ah! Aqui a coisa começa a ficar realmente boa. Eu já tinha visto este aqui há pouco mais de vinte anos, numa época de muitas descobertas, sobretudo do cinema francês e dos caminhos que meu gosto pessoal começava a abrir naquele momento. A Nouvelle Vague me fascinava mais, então assisti ao máximo que conseguia encontrar. Já o período anterior, uns Renoir, Cocteau e os primeiros Bresson, ainda não me pegava tanto... Era jovem, né? Com o tempo, meu interesse por Bresson foi crescendo cada vez mais e hoje considero facilmente um dos maiores cineastas que já existiram. Então foi foi meio que como assistir pela primeira vez a este aqui e perceber com mais clareza como o sujeito atinge a maturidade do seu estilo já neste terceiro longa.
O calvário espiritual e físico de um jovem padre em sua primeira paróquia, um exame rigoroso da “noite escura da alma”. Bresson explora a dialética entre a graça divina e a finitude humana, com o protagonista enfrentando o peso dos pecados de uma comunidade hostil, que nunca o aceita, enquanto seu próprio corpo definha, mimetizando uma via-crúcis solitária. Mas o mais foda é como Bresson transforma isso em imagens, recusa o melodrama convencional e opta pela estética de despojamento, um cinema transcendental, que desafia o espectador pouco familiarizado com sua austeridade. São quase duas horas dessa ascese bressoniana (uso de atores não profissionais, ausência de artifícios emocionais, abuso da elipse, e um rigor visual e narrativo). O resultado é um filme duro, de rasgar o coração, mas que de alguma forma possui uma beleza singular e poderosa. O estudo definitivo sobre a santidade, que Bresson já vinha testando desde seu primeiro filme, mas aqui encontrada no isolamento e na aceitação final de que, apesar da dor e da incompreensão, “tudo é graça”, como diz o protagonista nos seus momentos finais.
Un condamné à mort s'est échappé (1956)
Se o Stallone fez Condenação Brutal e Jean-Claude Van Damme fez Garantia de Morte, por que que Robert Bresson também teria o seu prison movie, não é mesmo?
Brincadeiras à parte, obviamente que o diretor faria algo sobre o tema à sua maneira, levaria mais ao extremo o que já havia mostrado em Journal d’un curé de campagne. E com um título que declara explicitamente o que está prestes a acontecer: a fuga de Fontaine (François Leterrier), um resistente francês preso pelos nazistas durante a ocupação francesa. Mas o que acontece é o que menos importa. O essencial tá em como acontece e no significado de cada gesto, a longa espera e cada detalhe entre o começo e o fim desse belo filme. Foi baseado na história real de André Devigny, membro da resistência que publicou memórias sobre sua fuga, e que dá base pra Fontaine, um homem completamente entregue à ideia de escapar.
Antes de chegar à prisão ele já faz sua primeira tentativa, ainda no carro. Já isolado na cela, com pouco a fazer além de observar, calcular e planejar sua escapada, transforma a própria rotina num método, o que é perfeito pra construção de uma narrativa minimalista e a austeridade visual de Bresson. O próprio fato de saber que o protagonista inevitavelmente escapará, como o título sugere, não diminui em nada a potência do filme. Até porque, no fim, não é sobre isso. Ou é sobre isso e muito mais… Bresson oferece uma visão completa de como é a vida numa prisão militar do período, nos convida a observar todos os detalhes intrincados dessa rotina e todos eles importam. Há muito a se encontrar no pouco que é supostamente oferecido, e não precisa de nada além do essencial bressoniano e de um profundo senso de poesia. Além da graça divina que atua de forma imprevisível, mas que exige a participação ativa e minuciosa do esforço humano. É um tratado sobre a liberdade conquistada através da disciplina e da paciência metafísica.
Pickpocket (1959)
Um filme sobre um batedor de carteiras. Em determinado momento, o protagonista fala sua teoria, acredita numa ideia de crime justo, como se certos indivíduos superiores estivessem acima das leis, mas essa teoria acaba funcionando mais como justificativa pro seu egoísmo e pra sua recusa em se integrar honestamente ao mundo.
Ao longo do filme, o roubo deixa de ser uma experiência de transcendência e liberdade pra se tornar rotina, praticamente um trabalho. E o sujeito acaba preso. E eu adoro as cenas de pickpocketing, carregam uma certa tensão estranha, com uma montagem maravilhosa transformando o ato quase numa dança coreografada. Belíssimo. O filme é praticamente um tratado sobre isolamento, a necessidade humana de conexão, e o desfecho, marcado por uma das frases mais célebres do cinema de Bresson, consolida o filme não como uma crônica criminal, mas como a história de um homem que precisou passar pela degradação moral pra finalmente compreender a força da graça e do amor.
Procès de Jeanne d'Arc (1962)
Embora não alcance a força arrebatadora de La Passion de Jeanne d'Arc, de Dreyer, era óbvio que Bresson iria transformar a recitação dos fatos, da inquisição da jovem, num exercício radical de “cinema puro” e transcendental, com uma Joana contida, quase sem dramatização, muito distante do martírio emocional exaltado por outras versões sobre essa figura. Em vez de heroísmo ou catarse, concentra a tensão no embate dialético entre a prisioneira e seus inquisidores e transforma sua execução inevitável num ritual burocrático de morte.
E eu já vinha percebendo isso antes nos filmes anteriores, Pickpocket obviamente tem bastante isso, mas me chama a atenção como Bresson parece cada vez mais fascinado pelas mãos dos personagens enquanto elemento de expressão. Ninguém na história do cinema se dedicou tanto em filmar as mãos de maneira tão especial. O que vai ganhar ainda mais força nos filmes seguintes.
Au Hasard Balthazar (1966)
Em diversas entrevistas, Bresson dizia que Balthazar foi um de seus melhores atores, justamente por não possuir a capacidade consciente de atuar, sendo apenas presença pura diante da câmera. E isso ajuda a entender muita coisa sobre o próprio cinema de Bresson. Balthazar, o burrico da trama, funciona como uma espécie de receptáculo dos pecados do mundo, passando pelas mãos de diferentes donos ao longo do filme, cada um deles representando alguma forma de torpeza humana. E, por ser um animal, aceita tudo com um estoicismo absoluto, quase sagrado. É um filme sobre vulnerabilidade e inocência diante de um mundo movido pelo acaso, pela crueldade e pela indiferença.
É o filme mais amargo de Bresson até então, mas também o mais bonito, o que melhor equilibra sua austeridade estética com uma poesia visual absurda. Na sua obsessão por filmar o essencial, Bresson encontra transcendência em ações simples e mecânicas, nas mãos que seguram as rédeas, que abrem gavetas, que acariciam os pelos do animal, mãos que se tocam. Uma mise-en-scène austera que ancora tudo na matéria física do mundo, mas que faz com que a dimensão espiritual emerja justamente desse realismo cru, sem adornos. Foi a primeira vez que assisti a este. Sublime.
Mouchette (1967)
Outro que nunca tinha assistido antes. E mais um retrato de uma adolescente, a Mouchette do título, cercada por humilhações e desamparo, assim como no filme anterior. Bresson tava mesmo amargo nesse período... Mas quando não esteve? E aqui não há um Balthazar para servir de escape. Mouchette tá sozinha. Vivendo em um vilarejo hostil, entre uma mãe acamada e figuras masculinas violentas, ela adota o ódio e a rebeldia como instintos de sobrevivência. Mesmo o único momento de diversão que o filme lhe proporciona (nos carrinhos bate-bate) é marcado pela repressão imediata.
Bresson dizia que não gostava de simbolismos, mas é impossível ignorar o paralelo estabelecido logo na abertura, com as armadilhas de caça e Mouchette presa à própria condição. Seja na escola, em casa ou no encontro traumático com o caçador da região, tudo converge para um fim inevitável. Aliás, a sequência do encontro com o caçador, na noite chuvosa, é desses momentos antológicos na filmografia do homem. A forma como ele constrói cada cena, como ela evolui, cada situação, me deixou realmente desconcertado. E o mais fascinante é que o filme parece crescer justamente depois desse suposto clímax. Tudo o que vem depois carrega um peso ainda maior (até porque outras tragédias vão acontecendo), como se Bresson estivesse menos interessado no choque do acontecimento principal do que nas cicatrizes que deixa. A sequência após a morte da mãe é devastadora, especialmente a cena da padaria, uma das minhas favoritas. É impressionante como Bresson consegue extrair tantas emoções contraditórias em tão pouco tempo. Sem concessões ao sentimentalismo, o filme é uma lenta descida ao inferno de uma jovem num mundo onde a inocência não encontra lugar.
Godard, que editou o trailer, chama de um filme “cristão e sádico”, definição perfeita: www.youtube.com/watch?v=j9HXcsE0gI8
Em breve, Bresson em cores.









