O QUE É UM BRUCEPLOITATION?
Bruce Lee Against Supermen, 1975, Wu Chia-Chun
Não é difícil entender o surgimento do movimento Bruceploitation, mas vou dar uma contextualização para quem nunca ouviu falar do termo. A coisa é bem simples, na verdade, e começa com a morte de Bruce Lee. Não preciso mencionar que o sujeito não era apenas o maior astro do cinema de artes marciais daquele período, mas um fenômeno cultural global, responsável por transformar filmes de kung fu em produtos de exportação extremamente lucrativos. Sua morte precoce obviamente foi um baque tremendo para alguns envolvidos na indústria cinematográfica local.
Com uma boa dose de picaretagem, diversos estúdios começaram a tirar proveito da fama internacional de Lee realizando filmes nos mesmos moldes dos veículos do falecido, mas estrelados por atores que relativamente lembravam fisicamente Bruce Lee ou imitavam seus trejeitos com um mínimo de convicção. Até mudaram seus nomes artísticos para que soassem descaradamente como Bruce Lee. Daí surgiram os seus “clones”, Bruce Li, Bruce Le, Bruce Lai, Dragon Lee, entre outros. Cada um tentando ocupar o vazio deixado pelo verdadeiro. É exploitation no sentido mais puro, aproveitando a popularidade de um ícone até o último centavo possível.
Em muitos casos, esses filmes eram feitos às pressas, com orçamentos modestos e roteiros praticamente montados em cima de ecos dos filmes de Lee. Alguns chegavam ao ponto de inventar continuações espirituais completamente absurdas. A safadeza dos estúdios chegou ao extremo de vender os filmes como se fossem produções legítimas, póstumas, realmente estreladas pelo verdadeiro Bruce. É bem comum encontrar dezenas de cartazes ou títulos de filmes com o nome Bruce Lee estampado, sendo que o ator só fez mesmo quatro longas completos como protagonista (só filmou 25% de O JOGO DA MORTE).
Depois, a coisa ficou muito na cara, ninguém caia mais nesse tipo de enganação, mas o ciclo Bruceploitation já estava bem inserido no cinema de ação de Hong Kong. Fez até relativo sucesso e o gênero ficou competitivo, com uns 15 atores fakes de Bruce Lee sendo contratados pelos estúdios disputando entre si o posto de melhor cópia. Mas quanto mais imitavam, mais acabavam evidenciando o quanto o sujeito era único.
E eis que resolvo pegar um desses exemplares pra ver. Olho a relação do que tenho aqui e me deparo com BRUCE LEE AGAINST SUPERMEN, dirigido por Chia Chun Wu e estrelado pelo Bruce Li. Eu digo, “Nossa, Vai ser esse mesmo!”. E, bem, venho aqui agora para dar o testemunho de que não se deve julgar um Bruceploitation pelo seu título. Tudo bem que eu até curti o filme, considerado por muitos um dos piores do ciclo, inclusive pelo Carl Jones em seu livro Here Come the Kung Fu Clones, e consigo entender perfeitamente os motivos. Mas também tenho minhas razões pessoais pra gostar dele.
Começando pelo enredo, que… er… Bem, eu até gostaria de tentar resumir aqui a trama, mas fica difícil entender direito o que raios acontece por aqui. O filme é uma tremenda bagunça em termos de roteiro, edição, uma completa falta de noção narrativa, nada tem lógica por aqui. É quase um filme art house experimental, uma tentativa de transcender qualquer sentido do espaço e tempo. Ou, talvez seja apenas incompetência mesmo, o que é bem mais provável. De qualquer forma, a história tem alguma coisa a ver com o Bruce Li tentando resgatar e salvar a vida de um cientista sequestrado por alguma organização criminosa. O que sobra ao redor desses acontecimentos é só pancadaria, pancadarias aleatórias, longas sequências de pancadaria.
Ah, e os tais Supermen do título? Primeiro, embora esteja no plural, só há mesmo um único Superman. E segundo, é evidente que não estamos falando do personagem da DC Comics, o Clark Kent e etc, mas de um mestre do kung fu, bigodudo, com um traje preto de banda de desfile da cidade, com uma capinha branca. E que é contratado ao troco de dinheiro, mulheres e bebidas para eliminar o protagonista.
E o protagonista é um assunto delicado, que retoma aquelas questões de quão confuso é o filme. Logo no início de BRUCE LEE AGAINST SUPERMEN, Bruce Li aparece usando a roupa do Kato, personagem que o verdadeiro Bruce viveu na série do Besouro Verde nos anos 60. Até aqui tudo bem. O problema é que alguns personagens começam a se referir a ele como… BESOURO VERDE!
O fato é que depois desse início, o sujeito nunca mais coloca o traje de novo ao longo do filme. Mas aí, a partir de um determinado momento, começam a chamá-lo de Carter. Carter? Tá bom então… Já no final do filme, depois de um épico confronto contra o Superman, do nada Li aparece mascarado e vestido com um uniforme vermelho de super herói, com uma mosca desenhada no peito (já haviam aparecido no filme alguns personagens vestidos assim, mas nada até então indicava que o protagonista fazia parte desse grupo). Neste ponto minha cabeça já estava fritando com tanta bizarrice que achei melhor nem tentar entender.
Até porque, pra chegar neste ponto, muita coisa louca aconteceu nesse filme, como os créditos iniciais ao som de um instrumental do famoso hino religioso, Castelo Forte; uma cena de sexo de Carter/Besouro Verde com uma coleguinha e sua namoradinha entrando no quarto, pegando o sujeito no flagra, seguido de uma briga entre as duas moças, com roupas sendo rasgadas e tudo mais; e temos também uma perseguição de carros a dezesseis quilômetros por hora e, claro, uma dose cavalar de cenas de luta, nos mais variado cenários, com diversos personagem esquisitos, e muito mal coreografadas. Mas até que Li demonstra que sabe alguns movimentos e até arrisca o manejo do nuntchaku como o Bruce original fazia.
Um espectador “sério” não suportaria nem trinta segundos de projeção. Nessas horas que percebo como tenho sorte de não ser dessa espécie de público. Toda essa variedade de tosquice fez com que eu tivesse 80 e poucos minutos da mais pura diversão cinematográfica. Como não amar esse tipo de cinema?
Texto originalmente escrito no blog Vício Frenético, em 2015, e atualizado para o Substack.








